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Por que não há hérnia de disco entre S2 e S4?

Por que não há hérnia de disco entre S2 e S4?

A coluna é formada por vértebras separadas por discos intervertebrais, estruturas que ajudam a absorver impacto e permitem movimento. Na região lombar, os discos mais frequentemente envolvidos em hérnias são L4-L5 e L5-S1. Abaixo de L5-S1 está o sacro, um osso formado pela união progressiva das vértebras sacrais.

Assim, uma hérnia de disco não ocorre literalmente “entre S2 e S4”. O que pode ocorrer é uma hérnia lombar, especialmente em L5-S1, comprimir estruturas nervosas que contribuem para a formação das raízes sacrais. Também pode haver outras condições na região sacral com sintomas semelhantes, como cistos perineurais, estreitamentos do canal vertebral, inflamações, fraturas, alterações tumorais ou doenças neurológicas. Cada hipótese tem significado e tratamento muito diferentes.

Em alguns casos, a pessoa lê no laudo termos como “raízes S2-S4”, “forames sacrais” ou “canal sacral” e interpreta a descrição como se fosse uma hérnia de disco naquele nível. O laudo, porém, deve ser correlacionado aos sintomas, ao exame físico e às imagens completas. Uma alteração radiológica isolada não confirma a causa da dor.

O que fazem as raízes nervosas S2-S4?

As raízes sacrais S2, S3 e S4 participam de funções sensíveis e motoras da pelve. Elas têm relação com a sensibilidade da região perineal - área entre os genitais e o ânus -, com parte da função sexual e com o controle da bexiga e do intestino. Também integram circuitos nervosos envolvidos no assoalho pélvico.

Por isso, sintomas compatíveis com comprometimento dessas raízes não costumam se limitar à dor lombar típica. Podem incluir dormência na região íntima, alteração da percepção ao se limpar após evacuar, dificuldade nova para iniciar a micção, perda involuntária de urina ou fezes e mudanças importantes na função sexual.

Esses sintomas não significam automaticamente compressão nervosa grave. Problemas urológicos, proctológicos, ginecológicos, efeitos de medicamentos e doenças neurológicas também podem causar manifestações parecidas. Ainda assim, a presença de alteração recente de sensibilidade perineal ou de controle esfincteriano não deve ser tratada como uma dor nas costas comum.

Raízes sacrais S2-S4 e síndrome da cauda equina

A situação que mais exige atenção ao falar em raízes sacrais é a síndrome da cauda equina. Trata-se de uma compressão relevante do conjunto de raízes nervosas localizado na porção inferior do canal vertebral. Uma hérnia de disco lombar volumosa é uma das possíveis causas, mas não é a única.

Os sinais de alerta incluem dor lombar intensa com irradiação para uma ou ambas as pernas, fraqueza progressiva, dormência em sela - na região perineal, nádegas e parte interna das coxas -, retenção urinária, incontinência urinária ou fecal e perda recente de sensibilidade genital. Nem todos os pacientes apresentam todos esses sinais ao mesmo tempo.

Diante de retenção urinária nova, perda de urina ou fezes associada à dor na coluna, anestesia na região íntima ou fraqueza que piora rapidamente, a orientação é procurar atendimento de urgência. Nessas circunstâncias, atrasar a avaliação pode aumentar o risco de déficits persistentes. O diagnóstico geralmente envolve exame clínico detalhado e ressonância magnética solicitada com prioridade quando há suspeita de compressão neural.

Como o diagnóstico é feito de forma segura?

O diagnóstico não deve se basear apenas em um termo digitado em uma pesquisa ou em uma frase isolada do laudo. Durante a consulta, a avaliação começa pela história dos sintomas: quando começaram, se houve trauma, se a dor irradia para a perna, se há piora ao caminhar ou sentar e se surgiram alterações urinárias, intestinais ou de sensibilidade.

O exame físico verifica força muscular, reflexos, sensibilidade, marcha e sinais de tensão das raízes nervosas. Quando os sintomas sugerem envolvimento sacral, a investigação clínica precisa ser ainda mais cuidadosa. Esse conjunto de informações ajuda a definir se há indicação de ressonância magnética, tomografia ou outros exames.

A ressonância é particularmente útil para avaliar discos, canal vertebral, raízes nervosas e tecidos moles. Mas ela tem uma limitação importante: muitas pessoas sem dor apresentam degeneração ou abaulamentos discais nas imagens. Por isso, identificar uma hérnia no exame não significa, por si só, que ela seja responsável pelos sintomas nem que uma cirurgia seja necessária.

Tratamento: a causa e a gravidade definem a conduta

Se houver uma hérnia lombar sem sinais de compressão neurológica grave, o tratamento costuma começar de forma conservadora. O objetivo é controlar a dor, reduzir a inflamação quando presente, preservar a mobilidade e permitir recuperação funcional. Analgésicos e anti-inflamatórios podem ser considerados pelo médico conforme o quadro clínico, as doenças associadas e os riscos individuais.

A reabilitação orientada pode fazer parte do plano quando indicada, respeitando a fase da dor e as limitações de cada paciente. Em situações selecionadas, procedimentos intervencionistas para controle da dor podem ser discutidos. Eles não substituem a investigação da causa e não são adequados para todos os casos.

A cirurgia é reservada para indicações específicas, como déficit motor progressivo, compressão importante demonstrada nos exames com compatibilidade clínica, dor incapacitante persistente apesar do tratamento adequado ou suspeita de síndrome da cauda equina. Em uma emergência neurológica, a descompressão cirúrgica pode ser necessária com rapidez. O benefício, os riscos e a técnica indicada dependem do nível afetado e do grau de comprometimento nervoso.

Quando não há hérnia lombar relevante, mas outra alteração na região sacral, a conduta muda completamente. Cistos, lesões ósseas, infecções e alterações neurológicas, por exemplo, podem exigir acompanhamento, exames complementares ou avaliação conjunta com outras especialidades. Essa é mais uma razão para não atribuir qualquer sintoma pélvico a uma suposta hérnia de disco S2-S4.

Quando marcar consulta e quando procurar urgência?

Dor lombar com irradiação, formigamento persistente, sensação de choque nas pernas ou limitação para trabalhar e dormir merece avaliação especializada, especialmente se os sintomas não melhoram ou voltam com frequência. Uma consulta permite diferenciar uma dor mecânica comum de uma radiculopatia, de uma hérnia discal clinicamente relevante ou de outra condição da coluna.

Procure atendimento de urgência se ocorrer perda ou dificuldade importante para controlar a urina ou o intestino, dormência nova na região íntima, fraqueza acentuada ou progressiva nas pernas, dor incapacitante associada a febre, ou dor após trauma significativo. Esses sinais não devem ser observados em casa à espera de melhora espontânea.

Para pacientes com dor na coluna e dúvida sobre um laudo de exame, a avaliação individualizada é o caminho mais seguro. O tratamento adequado começa por definir exatamente qual estrutura está envolvida e se há, de fato, comprometimento das raízes sacrais. Com diagnóstico preciso, é possível priorizar medidas conservadoras quando apropriado e indicar procedimentos ou cirurgia apenas quando realmente necessários.

 
 
 

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Dr. Amir Daher, ortopedista especialista em joelho e coluna
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