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Hérnia de disco L5 pode causar dor na perna?

A dor que sai da lombar, percorre a nádega e desce pela perna costuma gerar uma preocupação imediata: seria uma hérnia de disco L5? Embora essa expressão seja muito usada, ela pode descrever situações diferentes na coluna lombar. Entender o nível afetado, o nervo comprometido e a intensidade dos sintomas é decisivo para definir a conduta mais segura.

Nem toda hérnia causa dor intensa, e nem toda dor irradiada para a perna significa cirurgia. Em muitos casos, o tratamento não cirúrgico controla os sintomas e permite recuperar a rotina. Por outro lado, perda de força, alterações sensitivas importantes ou sinais de comprometimento neurológico exigem avaliação especializada sem demora.

O que significa hérnia de disco L5?

A coluna lombar é formada por vértebras e discos intervertebrais, estruturas que funcionam como amortecedores e ajudam no movimento. O disco possui uma camada externa mais resistente e um conteúdo interno gelatinoso. Quando parte desse conteúdo se desloca ou extravasa por uma fissura, pode ocorrer a hérnia de disco.

Do ponto de vista anatômico, não existe um “disco L5” isolado. Há os discos entre as vértebras L4-L5 e L5-S1. Na prática, quando uma pessoa fala em hérnia de disco L5, pode estar se referindo a uma hérnia no espaço L4-L5, que frequentemente afeta a raiz nervosa L5, ou a uma alteração próxima a esse segmento identificada em um exame.

Essa distinção é relevante porque a imagem da ressonância magnética, sozinha, não define o diagnóstico nem a necessidade de tratamento. É preciso correlacionar o achado com a história clínica, o exame físico e a distribuição da dor, do formigamento ou da fraqueza. Hérnias de disco podem aparecer em exames de pessoas sem sintomas e, portanto, não devem ser tratadas apenas porque foram visualizadas.

Sintomas mais comuns quando a raiz L5 é afetada

A compressão ou irritação da raiz L5 costuma causar dor lombar associada à dor irradiada para a nádega, parte lateral da coxa, lateral da perna e, em alguns casos, dorso do pé. Essa dor pode ser descrita como choque, queimação, pontada ou sensação de fisgada, e tende a piorar com determinados movimentos, tosse, espirro ou permanência prolongada em uma mesma posição.

Além da dor, podem ocorrer formigamento, dormência e alteração de sensibilidade no dorso do pé e no dedão. Algumas pessoas percebem dificuldade para elevar o pé ou o dedão, tropeços mais frequentes e redução de força ao caminhar sobre os calcanhares. Esses sinais não aparecem em todos os pacientes, mas merecem atenção porque podem indicar comprometimento neurológico.

A intensidade da dor não é o único critério de gravidade. Uma dor muito forte pode melhorar com medidas conservadoras, enquanto uma fraqueza progressiva, mesmo com dor moderada, pode demandar uma investigação e uma decisão terapêutica mais rápida.

O que pode favorecer uma hérnia lombar

A hérnia de disco geralmente não resulta de um único movimento. Em muitos pacientes, há um processo gradual de degeneração do disco, relacionado à idade, predisposição individual, sobrecarga mecânica, tabagismo, excesso de peso e histórico de episódios de dor lombar. Um esforço específico pode desencadear os sintomas, mas nem sempre é a causa isolada da alteração.

Atividades que exigem flexões repetidas do tronco, levantamento de carga sem técnica adequada ou longos períodos em posturas sustentadas podem agravar a dor em uma coluna já vulnerável. Ainda assim, é inadequado atribuir toda dor lombar a “desgaste” ou concluir que a pessoa precisará abandonar suas atividades. A avaliação deve considerar o padrão de sintomas, o trabalho, a prática esportiva, as limitações reais e os objetivos de cada paciente.

Como é feito o diagnóstico da hérnia de disco L5

O diagnóstico começa com uma consulta detalhada. O ortopedista investiga quando a dor começou, se houve trauma, para onde ela irradia, quais posições a pioram ou aliviam e se existem sintomas neurológicos. No exame físico, são avaliados marcha, força muscular, reflexos, sensibilidade e testes que ajudam a identificar a irritação de raízes nervosas.

A ressonância magnética é o exame mais utilizado para visualizar discos, nervos e outras estruturas da coluna. Ela costuma ser solicitada quando há dor persistente, sinais neurológicos, planejamento de procedimentos ou dúvida diagnóstica. Entretanto, pedir uma ressonância logo nos primeiros dias de uma lombalgia sem sinais de alerta nem sempre muda a conduta.

Radiografias podem ser úteis para avaliar alinhamento, instabilidade e alterações ósseas, mas não mostram a hérnia com a mesma precisão. Em situações selecionadas, exames como eletroneuromiografia auxiliam a diferenciar radiculopatia de outras causas de dor, dormência ou fraqueza na perna.

Tratamento: cirurgia não é a primeira resposta para todos

A maior parte dos quadros de hérnia lombar com dor irradiada pode ser inicialmente tratada de forma conservadora, desde que não existam sinais de urgência neurológica. O objetivo é controlar a dor, reduzir a inflamação ao redor da raiz nervosa, preservar a mobilidade e permitir uma recuperação progressiva da função.

O tratamento pode incluir medicamentos prescritos de acordo com o quadro clínico, orientação para manter atividades dentro do tolerável e acompanhamento de reabilitação quando indicado. Repouso absoluto prolongado, em geral, não é recomendado, pois pode aumentar a rigidez, a perda de condicionamento e a insegurança para retomar a rotina. A conduta precisa ser individualizada, especialmente em pessoas com outras doenças, uso contínuo de medicamentos ou dor incapacitante.

Quando a dor radicular persiste apesar das medidas iniciais, procedimentos intervencionistas podem ser considerados em casos selecionados. Infiltrações ou bloqueios guiados por imagem buscam reduzir a inflamação próxima ao nervo e podem oferecer uma janela para recuperação funcional. Eles não corrigem automaticamente a alteração anatômica do disco e não são indicados para todos, mas podem ser úteis quando há correlação clara entre sintomas, exame físico e imagem.

A cirurgia é discutida quando há fraqueza muscular significativa ou progressiva, dor incapacitante que não responde adequadamente ao tratamento conservador, recorrências muito limitantes ou sinais de compressão neurológica importante. A técnica mais comum é a descompressão do nervo com retirada da porção de hérnia que está causando o conflito. O objetivo não é “operar a ressonância”, mas aliviar uma compressão que tenha repercussão clínica relevante.

Como em qualquer procedimento, existem riscos, como infecção, sangramento, lesão neurológica, persistência de sintomas e nova hérnia no mesmo nível. Por isso, a indicação deve ser criteriosa e baseada em uma conversa transparente sobre benefícios esperados, limitações e alternativas.

Sinais de alerta: quando procurar atendimento com urgência

Alguns sintomas não devem ser observados em casa à espera de melhora. Procure avaliação médica imediata diante de perda súbita ou progressiva de força na perna, dificuldade importante para caminhar, dormência na região genital ou ao redor do ânus, incapacidade de controlar urina ou fezes, febre associada à dor lombar, trauma relevante ou dor acompanhada de perda de peso sem explicação.

Esses sinais podem indicar condições que exigem investigação rápida, incluindo uma compressão grave dos nervos. São situações menos frequentes, mas o reconhecimento precoce faz diferença para proteger a função neurológica.

O que esperar da recuperação

A evolução varia conforme o tamanho e a localização da hérnia, o grau de inflamação, a presença de déficit neurológico e as características de cada paciente. Algumas crises melhoram em semanas; outras exigem acompanhamento por mais tempo. Melhorar não significa apenas reduzir a dor, mas recuperar segurança para sentar, caminhar, trabalhar e realizar as atividades habituais sem limitação progressiva.

Após uma crise ou após um procedimento, o retorno às atividades deve ser planejado de forma gradual, de acordo com a avaliação ortopédica. A pressa para retomar esforços intensos e o medo excessivo de se movimentar podem ser obstáculos. O equilíbrio está em respeitar os sintomas sem transformar a coluna em uma fonte permanente de restrições.

Se a dor lombar irradiada para a perna persiste, se há formigamento recorrente ou se você notou perda de força, uma avaliação especializada permite diferenciar uma hérnia de disco L5 de outras causas e definir o tratamento mais apropriado. Decisões bem orientadas evitam tanto procedimentos desnecessários quanto atrasos diante de sinais que precisam de atenção.

 
 
 

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Dr. Amir Daher, ortopedista especialista em joelho e coluna
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