
Como tratar a tendinite com segurança e precisão
- IA Editorial

- 5 de ago.
- 5 min de leitura
A dor que começa apenas ao correr, subir escadas, trabalhar no computador ou carregar uma sacola pode evoluir para uma limitação relevante. A tendinite costuma ser atribuída a um “mau jeito”, mas, na maioria das vezes, resulta de uma sobrecarga progressiva do tendão. Identificar a causa correta é o que permite controlar a dor e retomar as atividades com segurança, sem ignorar problemas que exigem outra abordagem.
O que é tendinite?
Tendões são estruturas resistentes que ligam músculos aos ossos e transmitem a força necessária para movimentar uma articulação. Quando recebem carga excessiva, repetitiva ou inadequada para a sua capacidade de adaptação, podem se tornar dolorosos e perder parte de sua função.
O termo tendinite é amplamente usado para descrever esse quadro. Porém, em dores que persistem por semanas ou meses, nem sempre existe uma inflamação ativa no tendão. Podem predominar alterações na organização e na qualidade do tecido, situação frequentemente chamada de tendinopatia. Essa distinção tem valor prático: nem toda dor no tendão melhora apenas com repouso ou medicamentos anti-inflamatórios.
O tratamento deve considerar há quanto tempo os sintomas começaram, qual tendão está comprometido, a intensidade da dor, o impacto na rotina e fatores individuais, como idade, nível de atividade, doenças associadas e uso de medicamentos.
Onde a tendinite aparece com mais frequência
A tendinite pode acometer diferentes regiões do corpo. No joelho, é comum a dor no tendão patelar, logo abaixo da patela, especialmente em pessoas que correm, saltam, jogam futebol ou praticam atividades com mudanças rápidas de direção. Também pode haver comprometimento dos tendões do quadríceps e da região lateral do joelho, embora outras causas articulares precisem ser avaliadas.
No ombro, a dor pode estar relacionada aos tendões do manguito rotador, geralmente piorando ao elevar ou rodar o braço. No cotovelo, os quadros conhecidos como “cotovelo de tenista” ou “cotovelo de golfista” causam dor na face externa ou interna da articulação. O tendão de Aquiles, próximo ao calcanhar, e os tendões do punho e da mão também são locais frequentes.
A localização ajuda na investigação, mas não confirma sozinha o diagnóstico. Dor na frente do joelho, por exemplo, pode estar associada ao tendão patelar, mas também pode ocorrer em problemas da cartilagem, sobrecarga entre a patela e o fêmur, artrose ou lesões internas da articulação.
Quais são os sintomas mais comuns?
O sintoma mais característico é a dor localizada, geralmente reproduzida quando o tendão é exigido. Ela pode aparecer no início da atividade, melhorar durante o movimento e voltar depois do esforço. Em estágios mais avançados, a dor passa a ocorrer em tarefas simples, como caminhar, levantar de uma cadeira, subir escadas ou até mesmo em repouso.
Também podem ocorrer sensibilidade ao toque, rigidez após períodos parado, discreto inchaço e perda de desempenho. Algumas pessoas percebem fraqueza ou insegurança para realizar movimentos que antes eram habituais.
Dor intensa após um estalo, hematoma, deformidade, incapacidade de apoiar o peso ou de movimentar o membro exige avaliação rápida. Esses sinais podem indicar uma lesão parcial ou completa do tendão, que é diferente de uma tendinite e pode demandar conduta específica.
Por que a dor no tendão surge?
A sobrecarga é a causa mais comum. Ela não significa apenas excesso de esporte. Um aumento abrupto de caminhada, corrida, academia ou atividades domésticas pode ser suficiente, sobretudo quando o corpo ainda não se adaptou à nova demanda. Repetição de movimentos no trabalho, postura mantida por muitas horas e retorno precoce após uma lesão também podem contribuir.
Há ainda fatores que alteram a capacidade de recuperação do tendão. Entre eles estão idade, excesso de peso, diabetes, alterações hormonais, tabagismo, doenças reumatológicas e alguns medicamentos. O uso de determinadas classes de antibióticos, por exemplo, pode aumentar o risco de lesão tendínea em situações específicas e deve ser informado ao médico.
Nem sempre há um único motivo. Em muitos casos, o problema surge da combinação entre uma carga acima do habitual e uma condição prévia do tecido ou da articulação. Por isso, tratar apenas o ponto dolorido, sem entender o contexto, pode levar à recorrência.
Como é feito o diagnóstico da tendinite
A consulta ortopédica começa com uma conversa detalhada sobre o início da dor, atividades que pioram os sintomas, histórico de lesões e impacto funcional. Em seguida, o exame físico avalia o local de sensibilidade, mobilidade, força, estabilidade articular e sinais que apontem para outras causas.
Exames de imagem não são obrigatórios em todos os casos. A ultrassonografia pode mostrar espessamento, alterações estruturais e áreas de lesão no tendão, além de permitir avaliação dinâmica. A ressonância magnética costuma ser útil quando há dúvida diagnóstica, suspeita de ruptura, sintomas persistentes ou necessidade de investigar estruturas vizinhas, como cartilagem, menisco, ligamentos ou osso.
Um resultado de imagem deve ser interpretado junto com os sintomas e o exame físico. Alterações no tendão podem aparecer mesmo em pessoas sem dor, enquanto uma dor relevante pode existir com achados discretos. Decisões de tratamento não devem se basear apenas em um laudo.
Tratamento da tendinite: controle da dor e recuperação funcional
Na fase inicial, é necessário reduzir temporariamente a atividade que desencadeia a dor. Isso não equivale, na maior parte dos casos, a interromper todos os movimentos ou permanecer em repouso absoluto. A meta é ajustar a carga para evitar piora, preservando a função dentro de limites toleráveis.
Medidas para alívio da dor podem ser recomendadas conforme o quadro clínico. Medicamentos analgésicos ou anti-inflamatórios exigem indicação médica, pois têm contraindicações e não corrigem, por si só, a causa da sobrecarga. O uso repetido por conta própria pode mascarar sintomas e favorecer a continuidade de uma atividade que está lesionando o tendão.
A reabilitação orientada, quando indicada, é parte central do tratamento conservador. Ela busca recuperar a tolerância progressiva do tendão à carga, corrigir fatores mecânicos relevantes e favorecer o retorno seguro às atividades. O plano varia conforme o tendão acometido e os objetivos do paciente. Um corredor, por exemplo, tem demandas diferentes de uma pessoa cuja principal dificuldade é subir escadas sem dor.
Em situações selecionadas, podem ser consideradas terapias complementares e procedimentos intervencionistas. A indicação depende do diagnóstico, do tempo de evolução e da resposta às medidas iniciais. Infiltrações próximas a tendões exigem critério, pois algumas substâncias podem trazer alívio temporário, mas também apresentar riscos para a integridade do tecido em determinados locais. Não existe uma aplicação ou terapia regenerativa que seja adequada para todos os tipos de tendinopatia.
A cirurgia é incomum e costuma ficar reservada para rupturas, lesões importantes ou casos persistentes que não respondem a um tratamento conservador bem conduzido. Mesmo quando há indicação cirúrgica, a decisão deve considerar sintomas, exames, limitações funcionais e expectativas realistas de recuperação.
O que evitar durante uma crise de dor
Insistir na atividade que provoca dor forte, especialmente para “testar” o tendão, pode prolongar o problema. Da mesma forma, alternar longos períodos de imobilidade com tentativas de retornar diretamente à mesma intensidade de antes costuma ser uma estratégia pouco eficaz.
Também é prudente evitar automedicação e procedimentos sem diagnóstico definido. Dor no cotovelo pode não ser tendinite; dor no joelho pode não vir do tendão; dor no calcanhar pode coexistir com outras alterações. O nome popular do sintoma não substitui uma avaliação clínica.
Quando procurar um ortopedista
Vale buscar avaliação quando a dor persiste por mais de alguns dias apesar da redução de esforço, quando há recorrência frequente ou quando a limitação interfere em trabalho, sono, caminhada ou esporte. A consulta é ainda mais importante se houver inchaço significativo, perda de força, estalo associado a dor súbita, incapacidade para apoiar o membro ou sintomas que pioram progressivamente.
Para pacientes com dor no joelho, diferenciar uma tendinopatia de lesões de menisco, cartilagem, ligamentos ou artrose é fundamental para evitar atrasos no cuidado adequado. Uma investigação precisa permite definir se o foco deve ser o tratamento do tendão, da articulação ou de mais de uma estrutura.
A dor persistente não deve ser normalizada como consequência inevitável da idade ou da atividade física. Com diagnóstico individualizado e orientação baseada em evidências, é possível conduzir a tendinite de forma segura e construir um retorno gradual à mobilidade que faz sentido para a rotina de cada paciente.




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